
Não importa onde está agora, já faz tanto tempo. Se puder fazer alguma coisa por mim, faça com que eu nunca me esqueça de nós. Me lembre de nós duas deitadas sobre um lençol de cama que cobria a grama. Me lembre dos dias em que nossas bonecas andavam de carro pela casa. Me lembre de quando faltava luz e tu lia livros com uma vela na mão. Me lembre do que seriamos caso tudo desse certo. Se puder, me faça lembra dos desenhos nas pernas que eu fazia com canetinha. Me lembre das pessoas que conheci por vocês. Me lembre dos presentes que ganhava pra nós duas. Me lembre dos dias que me maquiava ou arrumava meus cabelos antes da escola. Das brigas que fazem tanta falta hoje. Me lembre de todos as músicas que cantava antes de sair. Me lembre da ansiedade de ir te buscar no trabalho. Do nervoso que sentia antes de ir revisar os meus cadernos. Se conseguir, me lembre do quanto me amava enquanto me abraçava ou lia algo que eu tinha escrito pra nossa família. Me lembre dos beijos na testa quando eu fingia dormir. Da primeira vez em que tive uma farpa no dedo e quem tirou foi tu enquanto perguntava sobre a escola. Eu nem senti nada, só felicidade por lembrar. Me lembre de sempre lembrar de você. Mas caso algum dia você me esqueça, eu vou lembrar que te amei mais do que se pode, mais do que alguém consegue. Eu sempre me orgulhei do tamanho das tuas roupas, dos cachos do teu cabelo. De como maquiava o olho ou como arrumava a casa. Eu me orgulhei de te buscar no trabalho e te ver sem braços por ter tantos presentes de alunos. De algumas vezes não te ver em casa por ter que organizar um grupo de teatro ou por ter que ficar deitada contigo enquanto corrigia milhares de provas. Por ter lutado por tudo o que quis e mesmo que tenha dado errado, eu apoiei, eu quis contigo. Era isso que queria de mim. Eu dei. Dei tudo o que pude dar pra que não se sentisse sozinha. Pra que não tivesse medo. E chorei. Chorei tua viagem como fazem os abandonados. Como fazem os tristes independentes. Levantei calmamente com teu sopro nos meus passos. Vivo incompleta como fazem os pedaços. Sem o depois, sem o resto, sem mais. vivi o que tinha pra lembrar e depois, depois não vivi mais. Hoje esqueci. Tudo o que falta é só o que falta. - Rafaela A.




